quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Leandro e Agno: um casal que agradou em "A Dona do Pedaço"

A atual novela das nove, em plena reta final, tem muitos personagens que caíram no gosto popular e Walcyr Carrasco, amem ou odeiem, é mestre no assunto. O autor consegue popularizar suas criações com facilidade. E uma das gratas surpresas de "A Dona do Pedaço" foi Agno. O empresário interesseiro estava em um núcleo que não despertou maior atenção nas primeiras semanas, mas foi se destacando ao longo dos meses através de conflitos interessantes envolvendo a sua sagacidade nos negócios (na verdade golpes) e sua segurança em torno da sexualidade. Virou um dos perfis mais atrativos da história e agora vem protagonizando uma relação que vem dando o que falar.


Agno inicialmente apresentou traços vilanescos e traía a esposa, Lyris (Deborah Evelyn), com garotos de programa. Era um pai ausente e sempre entrava em conflito com a sogra, Gladys (Nathalia Timberg), e o cunhado Régis (Reynaldo Gianecchini). Teve sua homossexualidade descoberta por Fabiana (Nathalia Dill), mas soube manipulá-la a seu favor. Ainda recebeu a ajuda da ex-noviça para dar um golpe na esposa na hora do divórcio, economizando um bom dinheiro com o pagamento de pensão. Todavia, a paixão por Rock (Caio Castro) foi amolecendo o coração do empresário, que tentou de tudo para conquistar o amigo. O lutador nunca alimentou qualquer esperança, pois sempre foi hétero. A amizade ao menos se manteve intacta.

Já foram várias reviravoltas no enredo do personagem e a mais recente foi o conflito com a filha, Cássia (Mel Maia), que não aceitava a homossexualidade do pai. Os conflitos destacaram Malvino Salvador, que vive seu melhor momento na carreira.
Embora seja um núcleo paralelo, há bastante importância na trama e Agno também foi inserido por Walcyr no enredo principal, uma vez que ajudou Rock e Maria da Paz (Juliana Paes) no golpe para Josiane (Agatha Moreira) perder grande parte da fortuna que roubou da mãe e agora planeja arruinar Fabiana. Mas a nova fase do ex de Lyris vem expondo o nascimento de um bonito romance com Leandro (Guilherme Leicam), previsto desde a sinopse do folhetim.

O chamado "Mão Santa" demorou um pouco a entrar, de fato, na novela. Integrante do clã Ramirez, o matador sempre foi parceiro de Chiclete (Sérgio Guizé) e saiu do interior do Espírito Santo para assassinar Vivi Guedes (Paolla Oliveira) e cumprir a missão que o amigo nunca conseguiu realizar por ter se apaixonado por sua vítima. Aos poucos o personagem acabou integrado ao núcleo de Agno graças ao trabalho que conseguiu como faxineiro na academia que Rock treina. O autor não vem construindo essa relação com pressa e parece saber bem o que pretende no futuro. O justiceiro foi morar com o pai de Cássia e uma bela parceria surgiu. O empresário nunca demonstrou interesse pelo rapaz e seus olhos sempre eram para o lutador. No entanto, qualquer resquício de esperança acabou sepultado pela reação negativa do lutador diante da última declaração de Agno, logo após o amigo de Maria ter se separado de Fabiana.

A primeira cena que marcou o início da nova relação foi quando Leandro se sensibilizou pela dor de Agno, pouco depois do fora que levou de Rock. O ricaço até se espantou com o abraço recebido e se chocou ainda mais com a declaração que recebeu do justiceiro. A sequência expôs a boa sintonia dos atores. "Mão Santa" também fez questão de ameaçar Fabiana para defender Agno, afinal, a vilã contou para Cássia que o pai dela era gay. Por causa da atitude, inclusive, o empresário descobriu que o seu admirador era um matador e o expulsou de casa. A ''separação", todavia, não durou muito. Agno começou a pensar em Leandro e se reaproximou com o claro intuito de conquistá-lo. O flerte foi bem explorado por Walcyr e o público comprou a trama, assim como aconteceu, guardadas as devidas proporções, com Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), do mesmo autor, em "Amor à Vida" (2013). Tanto que já há uma natural expectativa pelo beijo.

Só é de se lamentar a espécie de "cota" que parece estabelecida para todos os casais homoafetivos das novelas da Globo: apenas um por trama. A demonstração de carinho entre Agno e Leandro será apenas no último capítulo. O de Valéria (Bia Arantes) e Camila (Anaju Dorigon), em "Órfãos da Terra", foi apenas no penúltimo e nada no último. Guga (Pedro Alves) e Serginho (João Pedro Oliveira) já deram um selinho em "Malhação - Toda Forma de Amar" e até agora nem sinal de outro. Pablo (Rafael Infante) e William (Diego Montez) também deram um rápido beijo em "Bom Sucesso" e nunca mais repetiram o feito. Levando em conta que em um tempo nem tão distante assim o beijo era inaceitável, não deixa de ser um progresso. Mas ainda assim é bem pouco. Pena.

Carrasco entrou para a história da teledramaturgia com o primeiro beijo gay exibido nacionalmente em 2013, com "Amor à Vida", e falhou com a construção equivocada da relação de Samuel (Eriberto Leão) e Cido (Rafael Zulu) em "O Outro Lado do Paraíso" (2018). Agora voltou a acertar com Agno e Leandro em "A Dona do Pedaço". Malvino Salvador está ótimo em cena e Guilherme Leicam cresceu na história graças ao amor de Leandro por Agno. Tem sido muito interessante acompanhar esse relacionamento, onde a caricatura ou qualquer tipo de afetação inexiste. Outro êxito é o conflito principal do par não ser a aceitação ou o medo de se assumir. São dois homens seguros com a homossexualidade descobrindo o amor juntos. Simples assim.

14 comentários:

  1. Ótima análise, Sérgio. Percebo q há na crítica de TV mais barulhenta, digamos assim, uma má vontade imensa com o Walcyr. A meu ver, de fato às vezes ele é displicente na elaboração dos diálogos, mas sem dúvidas tem enorme criatividade na criação de tramas que aliam apelo popular a sensibilidade com temas contemporâneos.Quem mais poderia criar perfis de personagens tão originais como Acho, Leandro, Kim...

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  2. FINALMENTE UM TEXTO DO MEU CASAL!!!

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  3. Adorei o texto e a observação da cota de beijo gay em novela...Verdade.

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  4. Você observou bem, Sérgio, que além da pouca presença de veteranos em folhetins da Rede Globo, carece-se de mais cenas de beijo de casais homoafetivos.

    Guilherme

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  5. Nunca vi Malvino tão bem numa novela. Sempre achei um ator medíocre.Agora se encontrou com esse Agno.

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  6. Malvino Salvador realmente está ótimo, ele tem que daqui em diante pegar papéis diversificados, os atores tem que saber escolher muito bem seus papéis, durante muito tempo malvino se repetiu.

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  7. Anonimo, fico feliz que várias pessoas estejam vendo o que eu aviso há anos...Há uma cara má vontade com o autor sim...Qualquer um vê.

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  8. Na real, um dos piores tipo é o Leandro - ao lado de chiclete, camilo, fabiana, rael, josiane - que é um personagem que virou queridinho mesmo diante do ABSURDO de ser um assassino de aluguel como Rael.

    Onde já viu que justiceiro (tradução ASSASSINO DE ALUGUEL)é algo bom? Vai dizer isso para as vitimas. Essa sociedade do Brasil é doente mesmo.

    Para mim um dos melhores papéis foi o Agno por ser um personagem com facetas que foram desenvolvidas. Só não teve casal Ango e Rock porque os atores não tinha estomago para um romance assim. Se bem que o roteiro seria bem hilário com um casal Joana-Rock-Agno kkkkkkk

    Ainda sim, o ator Malvino fez bem o seu papel.

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